A VÉSPERA

O pernil bronzeado no forno dança
um balé ao compasso bumbá
Ela chora frescas cebolas roxas
pensando nos engradados de cerveja
que se refrescam no frizzer da vizinha
esperando para compartilhar a velha ceia
A missa do galo nem pensar! É tanta
a demora que a prece se tece com o olhar
fixo e perdido na panela fervente do arroz
Resmungando, agradece o ano velho
e faz votos de mirabolantes dietas para o novo
Mas se limita a poucos detalhes
e se enche de promessas enganosas
O celular anuncia, ao som do Safadão, a amiga
preocupada com o vestido, os sapatos,
maquiagem, cabelo, o cretino do ex e a farofa
O marido ainda não voltou do supermercado
Tão perto e tanta demora pra trazer a ervilha!
Merda! A camisa do Jorginei ainda por passar!
Eu mato ele quando ele chegar!
Chegou com a cara de cachorro abandonado
pela mudança. Esse filho da mãe não tem jeito!
Já estava tomando umas e eu aqui aperreada!
Mas é véspera de ano novo e nada de brigas
Abrimos uma latinha e nos beijamos com amor
Somos felizes, apesar da dura lida!
Mais um ano que se vai, o amor sempre fica.

(Marta Cortezao)

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MEMÓRIAS

Infância de águas
guardada no baú
das memórias… São
espumas flutuantes
de meu porto seguro.
São doces recordações
que embalam as
muitas primaveras
de meu melancólico
e turvo olhar que
percorre os igapós,
os estreitos igarapés
e os estratégicos furos
e o gigante rio-mar…
Céu estrelado de esperanças,
contagem perdida no infinito
presente no banzeiro das lembranças
da correnteza que me arrasta,
dos redemoinhos que me engolem
e me salvam da paralisia da vida
que me morde, pouco me beija
e tantas vezes me devora.

(Marta Cortezão)

SEGREDOS

Dona Cotia segredou-me
que o mais gostoso tucumã
está na tribo Tupeba.

E que a tal felicidade,
cujo sábio Tempo arrebatou-me
por veredas piegas,
reside também naquela cidade
na tenra inocência de cunhatã.
Disse-me ainda que a vida é um rio
sereno e manso de experiências,
que se bem vividas
pelos caminhos da decência
vale a pena, vale tudo,
vale amor, vale sapiência!

(Marta Cortezao)

CABOQUICES

Bom mesmo é uma matrixã assada
na brasa, uma pimenta malagueta,
aquela farinha ova torrada
e um vinagretezinho porreta!

Em seguida, a protagonista
da bendita sobremesa:
uma tigelada de vinho de açaí
e de novo a farinha do Uarini!

Cabôco vai se arrastando
se jogar numa rede
pra dormir se embalando
porque de bucho cheio
o cochilo é certeiro!!

(Marta Cortezão)

VAZIO

Tenho um vazio em mim
que me enche de incertezas
desquadra-me de início ao fim
apodera-se de minhas fortalezas
sonda meus pensamentos
enche-me de devaneios
libera medonhos tormentos
e devora tortuosos segredos.
Existe um vazio pleno
de abismos sedentos
que ora me consolam,
ora me apavoram.
Consolo que nasce da dor
e eternizam o pavor
do vazio que me consome
de ser bicho-homem,
neste turbulento mundo
de tantos absurdos
que me isolam no vazio
de desejos reprimidos,
de sonhos desfeitos,
aprisionados em meio
a intransponíveis muros.

(Marta Cortezão)

BAÍA TUPÉ

Saudosa baía Tupeba,
teus braços me acolhem
tal um abraço materno.
à distância, te olho
e sinto a melancolia
que te faz surgir em recortes
como imponente rainha
desta tribo de grande porte.
Deusa das águas,
rio negro onde correm amores
que em mim deságuam
curando feridas e dores.
Tens a Hélio e Diana,
por tua beleza, cativados.
Preciosa baía insana,
por devoção, sou teu escravo.
Quero seguir refém
deste amor que liberta.
Se além ou aquém,
meus versos para ti serão,
amada Baía da aldeia Tupeba!

(Marta Cortezão)

MATEMÁTICAS

Mais amor e menos rancor.
Menos ter e mais querer.
Mais poesia e açaí com farinha!
Menos ególatras e mais chocólatras.
Mais gratidão e pé no chão,
menos idiotas e mais jabá com farofa!
Mais dignidade, menos desonestidade.
Menos guerras e mais primaveras.
Mais flores e menos dores.
Menos corruptos e mais pacu-olhudo!
Mais lealdade e liberdade.
Menos terroristas e segregacionistas.
Mais vida, menos suicidas.
Mais harmonia e mais jaraqui frito.
Menos desprazer, mais lazer.
Menos inveja, menos tragédias.
Mais humor, sempre mais amor…
Mais humanidade, mais ser.
Porque ser mais é saber
o ponto exato de ser menos.

(Marta Cortezão)